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Pantera Negra, um filme como você nunca viu

Filme estreou nos cinemas nacionais nessa quinta, dia 15
Pantera Negra, um filme como você nunca viu

 

Quando um então pré-adolescente Ryan Coogler entrou em uma loja de quadrinhos à procura de personagens que se parecessem com ele, não imaginava que hoje seria sua vez de apresentar o Pantera Negra a uma nova geração, da mesma forma com que o vendedor da Dr. Comics & Mr. Games, em Oakland (na região de São Francisco, Califórnia), fizera há quase 20 anos, ao lhe mostrar as HQs do herói.

O diretor do filme "Pantera Negra" não lembra exatamente quantos anos tinha ("Devia estar na quinta ou sexta série", ele diz), mas aquele momento nunca saiu de sua memória. "Fui até o cara da loja e perguntei se ele tinha personagens negros. Ele me mostrou o Pantera Negra. Foi a primeira vez em que eu ouvi falar de uma história com um personagem que se parecia comigo", lembra o cineasta de 31 anos.

Coogler foi alçado à fama há cinco anos, com um filme que já focava a questão racial: "Fruitvale Station: A Última Parada" (2013), história real do jovem Oscar Grant, vítima da brutalidade policial. O drama levou o diretor ao Festival de Cannes e lhe rendeu a oportunidade de dirigir "Creed: Nascido para Lutar" (2015), sequência da franquia "Rocky: Um Lutador".

Como se já não fosse uma conquista e tanto para alguém tão jovem, o cineasta agora faz história ao levar para o cinema um filme como certamente você nunca viu, e cujo significado vai muito além de um mera aventura de super-herói.

Nunca antes na história dessa indústria

Pantera Negra foi o primeiro super-herói negro da história dos quadrinhos. Criado em julho de 1966, ele estreou em "Quarteto Fantástico" nº 52, poucos meses antes do surgimento do partido dos Panteras Negras, um dos grupos mais radicais no combate contra o preconceito racial nos EUA durante o século 20. Sua história não era abertamente política, mas o ambiente da luta pelos direitos civis não passou despercebido a Stan Lee e Jack Kirby, dois dos maiores nomes dentro do Universo Marvel.

Na época, os criadores até tentaram distanciar o personagem do movimento revolucionário ao mudar seu nome para Leopardo Negro, mas a mera existência de um herói africano já era simbólica o bastante para aquele momento. Não teve como fugir: a história do Pantera Negra nas HQs alternou fases mais políticas com aventura pura.

No cinema, o filme também coleciona marcos. "Pantera Negra" é a primeira mega produção de super-herói com um protagonista negro. E seus cerca de US$ 200 milhões de orçamento nem se comparam aos US$ 65 milhões gastos em "Blade Trinity" (2004), filme mais caro da trilogia protagonizada por Wesley Snipes.

Também é o primeiro filme desse porte com um elenco majoritariamente afro-americano: dos dez personagens mais importantes, apenas dois são brancos. O mesmo vale para quem está por trás das câmeras: o diretor e roteirista Coogler, o roteirista Joe Robert Cole e o produtor Nate Moore. Coogler só não tem o título de primeiro diretor negro de um filme de super-herói porque Tim Story fez as honras com dois filmes do Quarteto Fantástico, em 2005 e 2007.

Acho que ninguém viu um filme assim antes, nessa escala, com um elenco todo negro, o mundo de Wakanda, a cultura africana, que é mostrada desse jeito positivo, com a realeza e a tecnologia.
Michael B. Jordan, que interpreta o vilão Erik Killmonger.

E tudo isso imerso em uma indústria que ainda abre pouco espaço para personagens que fujam do padrão "homem branco heterossexual", capitaneada por executivos com esse perfil. Essa disparidade ficou muito clara no primeiro encontro do elenco e do diretor com a imprensa internacional, representada por um grupo de jornalistas em que não havia nenhum profissional negro. Mais um contraste: o outro filme que estava sendo divulgado pelo estúdio no mesmo fim de semana, "Star Wars: Os Últimos Jedi", tem apenas um ator negro no elenco principal (John Boyega, que interpreta o Finn).

Os números reforçam esse cenário: de 900 filmes lançados entre 2007 e 2016 e analisados em uma pesquisa da Universidade do Sul da Califórnia em Annenberg, negros estavam totalmente ausentes de 25 produções e representavam apenas 13,6% dos personagens com falas. Nesse mesmo universo, havia só 56 diretores negros, ou 5,6% do total.

Wakanda forever!

"Pantera Negra" não é um filme fora da curva só nos bastidores. Quando o diretor e o elenco dizem que é algo que ninguém nunca viu, eles não estão exagerando. A história é basicamente uma fantasia anticolonialista disfarçada de blockbuster da Marvel: e se um país africano tivesse escapado do imperialismo e todas as suas riquezas fossem exploradas em benefício do próprio povo? É o que Ryan Coogler tenta responder.

Wakanda é uma civilização antiquíssima, criada sobre uma mina de vibranium depositado ali após a queda de um meteorito. É esse metal (o mais resistente do mundo) que torna os wakandenses mais fortes e inteligentes. Formado por cinco tribos, o país conquistou a estabilidade quando um guerreiro se tornou o Pantera Negra, com a missão de ser o protetor do reino. Enquanto o resto do continente afundava no caos da escravidão e do colonialismo, Wakanda se manteve isolado, escondendo do mundo todas as suas riquezas tecnológicas.

No filme, o reino está mergulhado em incertezas após a morte do rei T'Chaka (John Kani), vítima de um atentado mostrado em "Capitão América: Guerra Civil" (2016). Nem todos estão certos de que T'Challa (Chadwick Boseman) está apto a suceder o pai, e o novo rei também precisa decidir se é hora de Wakanda se abrir para o mundo.

"Meu país também foi colonizado, é algo familiar. Isso aconteceu e podemos ver os efeitos", explica Letitia Wright, que nasceu na Guiana e interpreta Shuri, a irmã caçula de T'Challa.

Entendemos que Wakanda é um país que não quer que aconteça com eles o que eles viram acontecer com os outros países, e como isso os afetou.
Letitia Wright

A fantasia sobre o que a África poderia ter sido sem a intromissão europeia aparece até no sotaque do herói. "Lendo as HQs, não me parecia lógico que ele tivesse um sotaque europeu. Se Wakanda está fechado para o resto do mundo, e tem esse alto nível de tecnologia e inteligência, eles não precisam ir para Cambridge ou Oxford para estudar. Ele não vai falar com um sotaque europeu, ele não foi colonizado, não passou pelo que a maior parte da África passou", conta o protagonista Chadwick Boseman, que foi apresentado como T'Challa no filme "Guerra Civil".

Para criar o sotaque, o ator aproveitou que estava fazendo um outro filme na África do Sul para aprender xhosa, língua do clã de Nelson Mandela. O fato de o ator John Kani, que interpreta seu pai na ficção, ser sul-africano e falar a língua, também ajudou. E assim chegamos a um filme de super-herói em que não só os personagens falam inglês com sotaque, como também usam uma língua africana em várias cenas --algo nada comum em produções desse tamanho, em que em geral todo mundo fala inglês, não importa em qual parte do mundo estejamos.

As influências não vieram só da África do Sul. "Nos quadrinhos, Wakanda é quase uma alegoria para todo o continente", diz o diretor Ryan Coogler. "O conceito é que cada tribo possa representar outros países do continente. Nos inspiramos em tribos de Mali, Congo, Quênia, da África do Sul, em tribos da Etiópia. Bebemos em diferentes fontes e tentamos tomar decisões para que não fosse feito de uma maneira descuidada".

O resultado é um mundo que foge dos estereótipos que estamos acostumados a ver sobre a África, como guerras e pobreza, mas que ainda assim parece bastante autêntico, um mundo completo com sua própria língua, tradições, vestuários e até estilos de luta inspirados nas artes marciais locais.

Além de tudo, é um mundo povoado por personagens bem desenvolvidos e variados, que ocupam diferentes papéis dentro dessa sociedade fictícia.

As caras de Wakanda

T'Challa

Chadwick Boseman

O novo rei se divide entre o papel de estadista e protetor do reino. Além de enfrentar a resistência de alguns súditos, ele tenta entender que tipo de governante precisa ser, para o bem de seu povo

Nakia

Lupita Nyong'o

Ela poderia ser apenas o par romântico do Pantera Negra, mas deixou o romance de lado quando escolheu se tornar espiã. E ainda encontra tempo para algumas missões humanitárias

Okoye

Danai Gurira

A chefe das Dora Milaje, mistura de guarda real com serviço secreto, é a personificação da dignidade. A principal qualidade da maior guerreira de Wakanda é a lealdade ao reino

Shuri

Letitia Wright

A caçula da família real deixaria Tony Stark no chinelo com suas invenções. Responsável pela tecnologia que faz do Pantera Negra um herói, ela ainda encontra tempo para pegar no pé do irmão

Ramonda

Angela Bassett

A rainha-mãe representa uma figura de sabedoria e firmeza em meio às incertezas que tomam o novo rei. Mas, nos momentos mais tensos, é o instinto maternal que toma conta

W'Kabi

Daniel Kaluuya

Marido de Okoye e amigo de T'Challa, ele é um dos chefes da tribo da fronteira, que mantém para o mundo a fachada de que Wakanda é um país rural. Mas ele nem sempre concorda com o rei

Zuri

Forest Whitaker

Amigo do antigo rei, Zuri é o xamã responsável pela erva sagrada que dá os poderes ao Pantera Negra. Ele guarda um segredo do passado que pode fazer T'Challa questionar o legado de seu pai

Killmonger

Michael B. Jordan

Essa figura misteriosa é um dissidente de Wakanda com pretensões ao trono, que o levam a desafiar T'Challa. No fundo, os dois acreditam estar defendendo o país, mas de maneiras opostas

 

Um "filme negro? Não, muito mais que isso.

A equipe do filme espera que os personagens sirvam de inspiração para todo o público, independentemente de sua raça, gênero ou origem.

"As coisas com as quais o protagonista está lidando em um nível pessoal, a ideia de valor, as decisões a se tomar, o querer fazer o melhor para as pessoas que ama... todo mundo lida com isso", diz o diretor Ryan Coogler.

E Chadwick Boseman concorda:

Esse é um filme da Marvel. Se fosse 'Capitão América' ou 'Homem de Ferro', as pessoas não diriam que é um filme branco, diriam só que é um filme

Para que "Pantera Negra" pudesse acontecer dessa forma, muita coisa precisou mudar. Mesmo em outubro de 2014, quando o filme foi anunciado pela Marvel, Hollywood era um mundo bem diferente (a polêmica da campanha #OscarsSoWhite ainda não tinha varrido a indústria do cinema).

"Acho que agora é o momento perfeito", afirma o ator Michael B. Jordan. "Muitas coisas tiveram que acontecer para esse filme ser possível. Chadwick, Ryan, eu, Lupita [Nyong'o] e Danai [Gurira] precisamos alcançar um certo nível de sucesso para fazer sentido para o estúdio contar essa história e se arriscar com algo que ainda não tinha sido feito".

 

Sem espaço para ingenuidade, o diretor Ryan Coogler entende que as mudanças no perfil dos realizadores de Hollywood acontecerão enquanto houver lucro. "Como em qualquer outro negócio, se algo prova ser lucrativo, é nisso que vão investir", explica. "Se outra coisa prova que pode funcionar, é aquilo que vai ser feito. É difícil julgar se algo mudou [na indústria do cinema] em um período tão curto de tempo".

Michael B. Jordan também é cuidadoso ao avaliar se há realmente uma grande mudança acontecendo em Hollywood. "Está muito melhor do que era há dez, 15, 20 anos, mas ainda temos um longo caminho a percorrer. Acho que a indústria está começando a perceber que a diversidade é lucrativa e a abraçar especialmente a cultura afro-americana e personagens e vozes femininas. Tem a ver com a temperatura política e cultural atual no mundo, especialmente nos Estados Unidos. Mas precisávamos que a Disney e a Marvel abraçassem e legitimassem esse projeto, que é muito, muito caro. Se não funcionar, podemos não ter outra chance", adverte. "Isso é real".

 

Fonte(s): Uol

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